quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Por amor de Cristo, Paulo tudo suportou

Das Homilias de São João Crisóstomo, bispo
(Hom. 2 de laudibus sancti Pauli: PG 50,447-480)
(Séc. IV)

O que é o homem, quão grande é a dignidade da nossa natureza e de quanta virtude é capaz a criatura humana, Paulo o demonstrou mais do que qualquer outro. Cada dia ele subia mais alto e se tornava mais ardente, cada dia lutava com energia sempre nova contra os perigos que o ameaçavam. É o que depreendemos de suas próprias palavras: Esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente (cf. Fl 3,13). Percebendo a morte iminente, convidava os outros a comungarem da sua alegria, dizendo: Alegrai-vos e congratulai-vos comigo (Fl 2,18). Diante dos perigos, injúrias e opróbrios, igualmente se alegra e escreve aos coríntios: Eu me comprazo nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições (2Cor 12,10); porque sendo estas, conforme declarava, as armas da justiça, mostrava que delas lhe vinha um grande proveito.
Realmente, no meio das insídias dos inimigos, conquistava contínuas vitórias triunfando de todos os seus assaltos. E em toda parte, flagelado, coberto de injúrias e maldições, como se desfilasse num cortejo triunfal, erguendo numerosos troféus, gloriava-se e dava graças a Deus, dizendo: Graças sejam dadas a Deus que nos fez sempre triunfar (2Cor 2,14). Por isso, corria ao encontro das humilhações e das ofensas que suportava por causa da pregação, com mais entusiasmo do que nós quando nos apressamos para alcançar o prazer das honrarias; aspirava mais pela morte do que nós pela vida; ansiava mais pela pobreza do que nós pelas riquezas; e desejava muito mais o trabalho sem descanso do que nós o descanso depois do trabalho. Uma só coisa o amedrontava e fazia temer: ofender a Deus. E uma única coisa desejava: agradar a Deus.
Só se alegrava no amor de Cristo, que era para ele o maior de todos os bens; com isto julgava-se o mais feliz dos homens; sem isto, de nada lhe valia ser amigo dos senhores e poderosos. Com este amor preferia ser o último de todos, isto é, ser contado entre os réprobos, do que encontrar-se no meio de homens famosos pela consideração e pela honra, mas privados do amor de Cristo.
Para ele, o maior e único tormento consistia em separar-se de semelhante amor; esta era a sua geena, o seu único castigo, o infinito e intolerável suplício. Em compensação, gozar do amor de Cristo era para ele a vida, o mundo, o anjo, o presente, o futuro, o reino, a promessa, enfim, todos os bens. Afora isto, nada tinha por triste ou alegre. De tudo o que existe no mundo, nada lhe era agradável ou desagradável.
Não se importava com as coisas que admiramos, como se costuma desprezar a erva apodrecida. Para ele, tanto os tiranos como as multidões enfurecidas eram como mosquitos. Considerava como brinquedo de crianças os mil suplícios, os tormentos e a própria morte, desde que pudesse sofrer alguma coisa por Cristo.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Vicente venceu naquele por quem o mundo foi vencido

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo

((Sermo 276,1-2: PL 38,1256 (Séc. V)

A vós foi dado por Cristo não apenas crerdes nele, mas também sofrerdes por causa dele (Fl 1,29), diz a Escritura.
O levita Vicente recebera e possuía um e outro dom. Se não tivesse recebido, como os haveria de possuir? Tinha confiança na palavra, tinha coragem no sofrimento.

Ninguém, portanto, se envaideça de sua força interior, quando fala; ninguém confie nas próprias forças, quando é tentado; porque se falamos bem e com prudência, é de Deus que vem nossa sabedoria e, se suportamos os males com firmeza, é dele que vem a nossa força.
Lembrai-vos de como, no Evangelho, Cristo Senhor adverte os que são seus; lembrai-vos do Rei dos mártires instruindo nas armas espirituais os seus exércitos, exortando-os para a guerra, dando-lhes ajuda e prometendo a recompensa. Ele, que disse aos discípulos: No mundo, tereis tribulações, logo acrescenta, a fim de consolar os medrosos: Mas tende coragem! Eu venci o mundo (Jo 16,33).

Por que então nos admiramos, caríssimos, se Vicente venceu naquele por quem o mundo foi vencido? No mundo, tereis tribulações, diz o Senhor. O mundo persegue, mas não triunfa; ataca, mas não vence. O mundo conduz uma dupla batalha contra os soldados de Cristo: afaga-os para enganá-los, aterroriza-os para quebrá-los. Que o nosso bem-estar não nos preocupe, não nos assuste a maldade alheia, e o mundo está vencido.
Cristo acorre a ambos os combates e o cristão não é vencido. Se neste martírio se considera a capacidade humana para suportá-lo, o fato torna-se incompreensível; mas se nele se reconhece o poder divino, nada há que admirar.

Era tanta a crueldade que afligia o corpo do mártir, e tanta a serenidade que transparecia de sua voz; era tamanha a ferocidade dos suplícios que maltratavam os seus membros, e tamanha a firmeza que ressoava nas suas palavras que, de algum modo maravilhoso, enquanto Vicente suportava o martírio, julgávamos ser torturada outra pessoa diferente da que falava.

E era realmente assim, irmãos, era assim mesmo: era outro que falava. No Evangelho, Cristo prometeu também isto a suas testemunhas, ao prepará-las para tais combates. Falou deste modo: Não fiqueis preocupados como falar ou o que dizer. Com efeito, não sereis vós que havereis de falar, mas sim o Espírito do vosso Pai é que falará através de vós. (Mt 10,19-20).

Por conseguinte, a carne sofria e o Espírito falava; e enquanto o Espírito falava, não apenas era vencida a impiedade, mas também a fraqueza era confortada.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Confiança na palavra do Senhor

Salmo 55(56),2-7b.9-14 

Neste salmo se manifesta o Cristo em sua Paixão (S. Jerônimo). 

=2 Tende pena e compaixão de mim, ó Deus, † 
pois há tantos que me calcam sob os pés, * 
e agressores me oprimem todo dia! 
–3 Meus inimigos de contínuo me espezinham, * são numerosos os que lutam contra mim! 

–4 Quando o medo me invadir, ó Deus Altíssimo, * porei em vós a minha inteira confiança. 
=5 Confio em Deus e louvarei sua promessa; † 
é no Senhor que eu confio e nada temo: * 
que poderia contra mim um ser mortal? 

–6 Eles falam contra mim o dia inteiro, * 
eles desejam para mim somente o mal! 
–7b Armam ciladas e me espreitam reunidos, * 
seguem meus passos, perseguindo a minha vida! 

=9 Do meu exílio registrastes cada passo, † 
em vosso odre recolhestes cada lágrima, * 
e anotastes tudo isso em vosso livro. 
=10 Meus inimigos haverão de recuar † 
em qualquer dia em que eu vos invocar; * 
tenho certeza: o Senhor está comigo! 

=11 Confio em Deus e louvarei sua promessa; † 12 é no Senhor que eu confio e nada temo: * que poderia contra mim um ser mortal? 
–13 Devo cumprir, ó Deus, os votos que vos fiz, * e vos oferto um sacrifício de louvor, 

–14 porque da morte arrancastes minha vida * 
e não deixastes os meus pés escorregarem, 
– para que eu ande na presença do Senhor, * 
na presença do Senhor na luz da vida.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Todos pecaram e estão privados da glória de Deus (Rm 3,23).

Salmo 52(53) 
A insensatez dos ímpios

1 Diz o insensato em seu próprio coração: *
‘Não há Deus! Deus não existe!’
2 Corromperam-se em ações abomináveis, *
já não há quem faça o bem!

3 O Senhor, ele se inclina lá dos céus *
sobre os filhos de Adão,
– para ver se resta um homem de bom senso *
que ainda busque a Deus.

4 Mas todos eles igualmente se perderam, *
corrompendo-se uns aos outros;
– não existe mais nenhum que faça o bem, *
não existe um sequer!

5 Será que não percebem os malvados *
quanto exploram o meu povo?
– Eles devoram o meu povo como pão, *
e não invocam o Senhor.

6 Eis que se põem a tremer de tanto medo, *
onde não há o que temer;
– porque Deus fez dispersar até os ossos *
dos que te assediavam.

– Eles ficaram todos cheios de vergonha, *
porque Deus os rejeitou.
7 Que venha, venha logo de Sião *
a salvação de Israel!

– Quando o Senhor reconduzir do cativeiro *
os deportados de seu povo,
– que júbilo e que festa em Jacó, *
que alegria em Israel!

domingo, 14 de janeiro de 2018

"Vinde e Vede"

Evangelho (Jo1,35-42)
Naquele tempo, 35João estava de novo com dois de seus discípulos 36e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!” 37Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus.38Voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo, Jesus perguntou: “O que estais procurando?” Eles disseram: “Rabi (que quer dizer: Mestre), onde moras?”39Jesus respondeu: “Vinde ver”. Foram pois ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele. Era por volta das quatro da tarde.40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram as palavras de João e seguiram Jesus. 41Ele foi encontrar primeiro seu irmão Simão e lhe disse: “Encontramos o Messias” (que quer dizer: Cristo).42Então André conduziu Simão a Jesus. Jesus olhou bem para ele e disse: “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas” (que quer dizer: Pedra).

domingo, 7 de janeiro de 2018

"O Senhor deu a conhecer sua salvação ao mundo inteiro"

Dos Sermões de São Leão Magno, papa

(Sermo 3 in Epiphania Domini, 1-3.5: PL 54, 240-244)  (Séc. V)

Tendo a misericordiosa Providência de Deus decidido vir nos últimos tempos em socorro do mundo perdido, determinou salvar todos os povos em Cristo.

Esses povos formam a incontável descendência outrora prometida ao santo patriarca Abraão; descendência gerada não segundo a carne, mas pela fecundidade da fé, e por isso comparada à multidão das estrelas, para que o pai de todos os povos esperasse uma posteridade celeste e não terrestre.

Entrem, pois, todos os povos, entrem na família dos patriarcas, e recebam os filhos da promessa a bênção da descendência de Abraão, à qual renunciaram os filhos segundo a carne. Que todos os povos, representados pelos três Magos, adorem o Criador do universo; e Deus não seja conhecido apenas na Judéia mas no mundo inteiro, a fim de que por toda parte o seu nome seja grande em Israel (Sl 75, 2).

Portanto, amados filhos, instruídos nos mistérios da graça divina, celebremos com alegria espiritual o dia das nossas primícias e do primeiro chamado dos povos pagãos à fé, dando graças a Deus misericordioso que, conforme diz o Apóstolo, nos tornou capazes de participar da luz que é a herança dos santos; ele nos libertou do poder das trevas e nos recebeu no reino de seu amado Filho (Cl 1, 12-13). Pois, como anunciou Isaías, o povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu (Is 9, 1). E ainda referindo-se a eles, o mesmo profeta diz ao Senhor: Nações que não vos conheciam vos invocarão e povos que vos ignoravam acorrerão a vós (cf. Is 55, 5).

Esse dia, Abraão viu e alegrou-se (Jo 8, 56) ao saber que seus filhos segundo a fé seriam abençoados na sua descendência, que é  Cristo, e ao prever que, por sua fé, seria pai de todos os povos. E deu glória a Deus, plenamente convencido de que Deus tem poder para cumprir o que prometeu (Rm 4, 20-21). Esse dia, também Davi cantou nos salmos, dizendo: As nações que criastes virão adorar, Senhor, e louvar vosso nome (Sl 85, 9). E ainda: O Senhor fez conhecer a salvação, e às nações, sua justiça (Sl 97, 2).

Como sabemos, tudo isto se realizou quando os três Magos, chamados de seu longínquo país, foram conduzidos por uma estrela, para irem conhecer e adorar o Rei do céu e da terra. O serviço prestado por esta estrela nos convida a imitar sua obediência, isto é, servir com todas as forças essa graça que nos chama todos para Cristo.

Animados por esse desejo, amados filhos, deveis empenhar-vos em ser úteis uns aos outros, para que no reino de Deus, aonde se entra graças à integridade da fé e às boas obras, resplandeçais como filhos da luz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo por todos os séculos dos séculos.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Poema para rezar - Quem será tão grande Rei?

Elevai o olhar aos céus
vós que a Cristo procurais.
E da sua eterna glória
podereis ver os sinais.
Essa estrela vence o sol
em fulgor e em beleza,
e nos diz ter vindo à terra
Deus, em nossa natureza.
Da região do mundo persa,
onde o sol tem seu portal,
sábios Magos reconhecem
do Rei novo o sinal.
Quem será tão grande Rei,
a quem astros obedecem,
a quem servem luz e céus
e suas forças estremecem?
Percebemos algo novo,
imortal, superior,
que domina céus e caos
e lhes é anterior.
Rei do povo de Israel,
este é o Rei das gentes,
prometido a Abraão
e à sua raça eternamente.
Ó Jesus, louvor a vós
que às nações vos revelais.
Glória ao Pai e ao Espírito
pelos tempos eternais.