sexta-feira, 12 de março de 2021

Ele é o único Deus e não existe outro além dele


Ao que nos parece, quando se trata das coisas de Deus, os seres humanos querem que tenha uma lei. Alguma coisa que possa usar para acusar o outro de erro diante de Deus.

O evangelho de hoje nos remete a uma cena onde um mestre da Lei aproximou-se de Jesus, e lhe pergunta "Qual é o primeiro de todos os mandamentos". Para quem acha que somente a lei torna uma pessoa justa, nada de mais em colocar o outro numa situação complicada.

Mas, Jesus é Jesus. Sabe como sair das situações embaraçosas que os fundamentalistas querem colocá-lo. E responde, "Ouve, ó Israel"! Não basta conhecer, é preciso "Ouvir". Não basta ter a lei na ponta da língua, é preciso compreender e viver.

E, Ele continuou. "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força".

Caramba, deixou o homem numa situação complicada. Não basta conhecer o primeiro mandamento. É preciso que ele se torne vida, que se faça presente nas palavras, nos gestos, nos atos. Amar a Deus não só com a compreensão. Mas amar por inteiro. Santo Inácio de Loyola disse "tomai senhor, e recebei, toda a minha liberdade, a minha memória também. O meu entendimento, e toda a minha vontade. Tudo que tenho o possuo, vós me destes com amor. Com gratidão vos devolvo. Dispondes deles, Senhor, segundo a vossa vontade. Dá-me somente o vosso amor, vossa graça, isso me basta, nada mais quero pedir". Um perfeito entendimento dessas palavras de Jesus.

Mas, para Jesus, não há superficialidade em suas palavras. Não basta amar a Deus. Esse amor, leva ao encontro das pessoas, da humanidade. Então, há um segundo mandamento que complementa o primeiro. E não existe um sem o outro. 

E Jesus disse, "o segundo mandamento é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo! Não existe outro mandamento maior do que estes". É um com o outro. Entrelaçados. Imbricados. Os dois se encaixam perfeitamente. Os dois andam juntos, como irmãos siameses.

O mestre da Lei compreende o que disse Jesus. E acrescenta que tudo isso é maior do que todos os holocaustos e sacrifícios, pois esses são manifestações exteriores, e qualquer um pode fazê-lo. Mas, a vivência da lei deve vir de dentro, do coração. Não se impõem. 

Se compreendermos isso, estaremos no caminho certo para o Reino de Deus. É preciso viver esse amor a Deus e ao próximo. É preciso empenhar a vida toda na construção desse amor que leva ao Reino de  Deus.

Pare. Escute. Medite. 


Evangelho de Jesus Cristo escrito por Marcos 12,28b-34

Naquele tempo: 28bUm mestre da Lei, aproximou-se de Jesus e perguntou: 'Qual é o primeiro de todos os mandamentos?' 29Jesus respondeu: 'O primeiro é este: Ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força! 31O segundo mandamento é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo! Não existe outro mandamento maior do que estes'. 32O mestre da Lei disse a Jesus: 'Muito bem, Mestre! Na verdade, é como disseste: Ele é o único Deus e não existe outro além dele. 33Amá-lo de todo o coração, de toda a mente, e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios'. 34Jesus viu que ele tinha respondido com inteligência, e disse: 'Tu não estás longe do Reino de Deus'. E ninguém mais tinha coragem de fazer perguntas a Jesus.

Palavra da Salvação.


quinta-feira, 11 de março de 2021

"Quem não está comigo, está contra mim"


Começo dizendo, "deu ruim", como diz o ditado popular. O evangelho de hoje começa dizendo que Jesus estava expulsando um demônio "que era mudo".

Obviamente, um mudo não fala. O mudo se cala diante de tudo e de todos. O mudo não denuncia as injustiças, as situações de racismos, de homofobia, de misoginia. O mudo se omite em denunciar a destruição da natureza, do meio ambiente. O mudo não reivindica vacina para todos e todas. O mudo se cala diante das ações de violência contra crianças, adolescentes, jovens negros e negras nas comunidades pobres de nosso país, principalmente, nas grandes cidades.

Jesus estava expulsando um "demônio que era mudo". Estava formando a consciência daquela pessoa. Mostrando que é preciso denunciar as situações de injustiças. A pessoa, livre do demônio mudo, anuncia o Reino de Deus. O reino de solidariedade, de justiça, de paz. O reino que não admite injustiças. O reino que acolhe e inclui todas e todos.

Entretanto, o chamado detentores do poder, aqueles que não abrem mão do status quo, não admitem que alguém abra a consciência dos oprimidos e que ele comece a denunciar as situações de injustiças praticadas pelos que tem o poder.

Assim, tentam desqualificar Jesus. Desqualificar sua prática. Desqualificar sua obra de instauração do Reino de Deus.

Então, ele diz, que "um reino dividido contra si mesmo, será destruído". Em Jesus, o Reino é unidade, em oposição ao reino da mentira no qual viviam seus interlocutores. Reino de Deus é para todos. E o reino dos que detêm o poder pelo poder, é um reino de morte, de destruição, de exclusão. Portanto, quem quer fazer parte do Reino de Deus deve estar disposto a ajudar o mudo a falar.

É preciso ser forte. Orar sempre. O demônio sempre busca uma brecha em nossa humanidade para nos tentar. Mas, com oração, jejum e esmola podemos ser mais fortes do que ele, pois esses pilares da nossa fé e da nossa prática religiosa são a força necessária para nãos desviarmos do caminho do Reino de Deus.

Lembremos sempre de que devemos nos revestir da "armadura" da esmola, do jejum, da oração, para estarmos ajuntando com Jesus na construção do Reino de Deus na vida das pessoas.

Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 11,14-23

Naquele tempo: 14Jesus estava expulsando um demônio que era mudo. Quando o demônio saiu, o mudo começou a falar, e as multidões ficaram admiradas. 15Mas alguns disseram: 'É por Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios.' 16Outros, para tentar Jesus, pediam-lhe um sinal do céu. 17Mas, conhecendo seus pensamentos, Jesus disse-lhes: 'Todo reino dividido contra si mesmo será destruído; e cairá uma casa por cima da outra. 18Ora, se até Satanás está dividido contra si mesmo, como poderá sobreviver o seu reino? Vós dizeis que é por Belzebu que eu expulso os demônios. 19Se é por meio de Belzebu que eu expulso demônios, vossos filhos os expulsam por meio de quem? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. 20Mas, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus. 21Quando um homem forte e bem armado guarda a própria casa, seus bens estão seguros. 22Mas, quando chega um homem mais forte do que ele, vence-o, arranca-lhe a armadura na qual ele confiava, e reparte o que roubou. 23Quem não está comigo, está contra mim. E quem não recolhe comigo, dispersa.

Palavra da Salvação.

terça-feira, 9 de março de 2021

Quantas vezes devo perdoar meu irmão.


"Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou". Assim lemos no evangelho de hoje.

Um exemplo de direção espiritual. A direção espiritual é assim, como viver a Palavra de Deus no dia-a-dia. Como agir conforme a vontade de Deus. 

Era preciso estar próximo. Olhar Jesus bem de perto. Entender o que ia no seu coração. A pergunta, de cunho pessoal poderia causar estranheza. Não poderia ser aquela pergunta de "meio de sala", de onde grita o estudante. Era preciso estar próximo.

E perguntou, "quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim". A lei judaica era rígida com essas normativas que quantificavam as práticas religiosas. Por isso, o numeral sete aparece na história. "Até sete vezes"? 

Jesus, então, faz a catequese do perdão, da misericórdia. Não há um limite para o perdão divino, por isso, não deve haver um limite para o perdão humano. Não basta perdoar apenas sete vezes sete; é preciso perdoar sempre. Por isso, o perdão cristão, o perdão do discípulo deve ser setenta vezes sete. Sinal de infinitude. A história poderia acabar aqui. E pronto. 

Mas Jesus precisava mostrar uma situação concreta de como esse perdão deve ser dado. Por isso, contou a parábola. A misericórdia não deve ser mesquinha. O perdão não pode ser um ato tacanho. A mesma misericórdia que queremos que sejamos tratados, devemos dá-lo aos outros também. Lembre-se, "perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido". 

Tal como Jesus, devemos perdoar, assim é a nova humanidade. O novo jeito de ser. O novo céu a a nova terra são feitos de misericórdia, perdão, acolhimento. 

Aja com misericórdia, e obterás misericórdia. Aja com perdão, e obterás perdão, e terás um lugar no Reino dos Céus.

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 18,21-35

Naquele tempo: 21Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: 'Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?' 22Jesus respondeu: 'Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. 24Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. 25Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. 26O empregado, porém, caíu aos pés do patrão, e, prostrado, suplicava: `Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo'. 27Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. 28Ao sair dali, aquele empregado encontrou um dos seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: `Paga o que me deves'. 29O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: `Dá-me um prazo! e eu te pagarei'. 30Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. 31Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. 32Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: `Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. 33Não devias tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?' 34O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. 35É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão.'

Palavra da Salvação.

Tenha um diretor ou diretora espiritual. Alguém que você confie. Que saiba identificar o que vem de Deus, ou não. Que seja uma pessoa de oração. Que medite a palavra de Deus.

Lembre-se de fazer a lectio divina diariamente, assim, você terá o que partilhar com seu diretor/diretora espiritual. 

segunda-feira, 8 de março de 2021

Dia Internacional da Mulher

 


Oito de março, dia internacional da mulher. Essa data foi instituída pela ONU em 1970. Civilmente, simboliza a luta das mulheres por direitos civis e sociais que lhes são negados.

Minha reflexão para hoje vai no sentido de dar uma visão que sempre fica esquecida dentro da Igreja, que por cultura, ainda é machista, e muitas vezes, misógina. A Igreja ainda tem aversão a presença nas mulheres em suas instâncias de poder e decisão. Apesar de o Papa Francisco ter ido no sentido contrário a esse pensamento, ainda é comum esse sentimento de afastamento das mulheres. Mas isso, é assunto para outro momento.

Hoje, vou destacar alguns encontros de Jesus com as mulheres: Cananéia, Samaritana, Aquela que ungiu seus pés, a chamada "adúltera", Madalena, As que estiveram aos pés da Cruz, e como estamos na quaresma, as que encontraram Jesus no caminho do calvário. Será um texto reflexivo, não teológico.

Primeiramente, destaco que Mateus, Lucas e João narram esses vários encontros. É recorrente. Cada um dentro de sua perspectiva teológica.

1° Jesus e a Cananeia (Mt 15,21-28). Um encontro interessante. Jesus está numa região distante. Aproxima-se dele uma mulher cananeia, isto é, não judia. E lhe pede uma ajuda. Aqui vemos duas situações estranhas para a época. Uma mulher, não judia, dirigir a palavra a um judeu, homem. É o primeiro consentimento que Jesus permite, rompe com a lei. Segundo, ela faz um pedido, pois, mesmo não pertencendo aquele povo "escolhido", vê naquele homem a única possibilidade de cura de sua filha. Entretanto, Jesus, num primeiro momento nega esse pedido. Usa até de uma expressão não muito condizente para os nossos dias, diz a ela que não é justo tirar o alimento dos filhos para dar aos cachorrinhos. Não precisa ser mito inteligente para perceber que ele chama a mulher e o povo a que pertence de "cachorrinhos". Mas ela insiste, pois sabia que a única maneira de salvar a filha estava ali, diante dela. E responde, "é verdade senhor, mas os cachorrinho comem as migalhas que as crianças deixam cair". Que fé. Que coragem. Que ousadia. Ela não precisava de muito, bastava uma migalha vindo de Jesus. Jesus cai em si. Percebe que aquela mulher, que aquele povo também precisava da misericórdia de Deus que estava a pregar. E lhe concede o que estava pedindo.

2° Jesus e a Samaritana (Jo 4). Aqui outro caso de um encontro de Jesus com outra estrangeira. E pior ainda, pois o evangelista João, que narra esse fato, ressalta que os judeus e os samaritanos não se davam. 

Esse encontro se dá ao meio dia. Sol a pino. Calor excessivo. Jesus esta esperando os discípulos voltarem da cidade onde foram comprar comida. A mulher aparece. Jesus pede água. Dai em diante conhecemos a história. Quem não a conhece, ou não recorda, pode pegar sua bíblia e ler o texto. 

Quero destacar o quanto Jesus foi aprofundando a conversa com ela a partir da água, da sede, do poço. A sede e a água foi pretexto para ele puxar conversa. E mais uma vez, ele rompe com a lei. Conversa com uma mulher; num lugar deserto, longe de tudo e de todos. Ele judeu, ela samaritana. Quanto escândalo embutido nessa cena. Mas também, acolhimento às necessidades humanas, necessidades espirituais e sociais. Aquela mulher e aquele povo precisavam provar dessa água nova que Jesus trazia. E ela é a porta para Jesus chegar ao coração do povo samaritano. 

3° Jesus e a Mulher que lhe ungiu os pés (Lc. 7,36-50). Nesse encontro vemos a hipocrisia religiosa saltar aos olhos. O texto narra que Jesus havia ido a casa de um fariseu fazer refeição com ele. Existia todo um protocolo legal para receber uma visita em casa. Entretanto, aquele homem "justo", e "piedoso" não cumpriu nenhum deles. Mais uma vez, Jesus rompe com os protocolos legais. Entra uma mulher. Essa posta-se atrás dele, e começa a chorar. Com as lágrimas, molhava os pés dele, e com os cabelos secava, para em seguida beijá-los. E ungia com perfume. Mais uma cena que chocou aquela sociedade que se achava cumpridora das leis de Deus. 

Ao achar estranho aquela cena, os chamados homens bons pensam, esse homem não é um profeta, se não, saberia quem era aquela mulher. Jesus faz a catequese do acolhimento dos afastados. Reinsere aquela mulher no grupo daqueles que tem dignidade. Revela que a situação dela é provocada por todos aqueles que se acham melhores. 

4° Jesus e a "Adúltera" (Jo 8, 1-11). Texto significativo. Nesse caso, Jesus está no meio dos seus compatriotas. Não há indicação que a mulher fosse estrangeira, era uma prostituta judia. O povo a acusa de adultério, e pela lei, deveria ser apedrejada, banida da convivência social. Mais uma vez, não olha o fato em si, mas o que aquilo representa. Ninguém comete adultério sozinha. Onde estava o homem com o qual a mulher estava deitada? Seria algum daqueles que estavam diante de Jesus? Por isso, a pergunta: quem não tiver pecados, atire a primeira pedra! E a mulher não foi apedrejada. E Jesus, mais uma vez, resgata uma mulher que serviria de chacota para o povo, e a recoloca em sua dignidade de ser humano.

5° Jesus e Madalena. Encontramos duas referências a Maria Madalena. A primeira, em Lucas 8,1-3. Nesse texto, o evangelista ressalta uma lista de mulheres que acompanhavam Jesus, dentre elas, Maria de Magdala, da qual ela havia expulsado sete demônios. E a segunda referência, em João 20,1-18, quando o autor destaca que Maria Madalena fora ao túmulo de Jesus ainda de madrugada. E que ela foi a primeira pessoa a dar a notícia da ressurreição de Jesus aos discípulos. Muita história ronda a vida dessa mulher. Ela tem um destaque muito grande na vida da Igreja. Sem ela, os discípulos ficariam escondidos até o dia de hoje. Ela é exemplo de anuncio, de coragem, de fé. Tanto que o Papa Francisco a proclamou Apóstola dos Apóstolos. 

Ainda temos duas outras cenas da relação de Jesus com as mulheres. A que Jesus encontra as mulheres durante sua caminhada para o calvário. E as mulheres que estavam aos pés da cruz.

No caminho para o calvário, um grupo de mulheres ia pelo caminho chorando. Ao que parece, isso era comum. Entretanto, Jesus não quer uma piedade que seja fingimento. É preciso olhar para a vida, para frente. Não basta chorar por ele. É preciso olhar para dentro de si, para sua casa, para sua família. 

Os discípulos, medrosos de morrerem, fugiram de todo o percurso da via-sacra. Somente as mulheres lá estavam. E mais uma vez, vemos várias mulheres sendo nomeadas até o fim com Jesus. Não tiveram medo de sofrerem as mesmas coisas que ele. O acompanharam até o fim na vida terrena, e depois, tiveram a sorte de serem as primeiras a verem Jesus.

Hoje fazemos memória a tantas mulheres que deram a vida pela inclusão feminina num mundo machista, numa sociedade patriarcal. Ainda estamos num processo de entender que homens e mulheres tem a mesma essência. São complementos. Não rivais.

Esse é um texto escrito por um homem. Com visão de homem. Mas que convive com mulheres que estão na vanguarda de seu tempo, e busca entender seus anseios.

Não é um texto teológico, como eu disse. É uma reflexão diante do que se dá aos nossos olhos. 

Salve Margarida Maria Alves, Ir. Dorothy Stang, Marielle Franco e tantas outras. 

Lembremos de Maria mãe de Jesus que em seu canto do Magnificat, reconheceu o braço poderoso de Deus que dispersa os ricos de mãos vazias, que alimenta os famintos, e que exalta os humildes.


Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria


Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas 4,24-30

Jesus, vindo a Nazaré, disse ao povo na sinagoga: 24'Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. 26No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. 27E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio.' 28Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29Levantaram-se e  o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. 30Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.

Palavra da Salvação.

Jesus está em sua cidade natal. Onde havia sido criado. Ao olhar essa cena, sempre imaginei o seguinte, como somos nós em não reconhecermos nos nossos escolhidos a presença de Deus. Assim somos nós. Temos dificuldades em reconhecer aqueles e aquelas que conhecemos, como missionárias e missionários de Deus.

A missão do profeta é mostrar que várias vezes nós nos afastamos daquilo que Deus espera de nós. E isso, choca, causa estranheza, repulsa, indignação, raiva. 

A fala de Jesus chocou a sua comunidade. Jesus estava recordando que no tempo de Elias e Eliseu Deus os enviou aos estrangeiros para serem curados e alimentados. Eles não conseguiram perceber que Deus é Deus de todos, e não só dos judeus. Cristo é de todos, e não só dos católicos, dos protestantes, de outras denominações. 

Jesus tem uma proposta de vida, um jeito de se viver a nossa humanidade. Ele não pode ser aprisionado por dogmas, por leis, por doutrinas. Deus é tudo em todos. 

No nascimento de Jesus, ouvimos os anjos dizerem, "e aos homens de boa vontade". Ser um pessoa de boa vontade é ser solidário com a dor de quem quer que seja. É chorar com os que choram. É estar ao lado daqueles e daquelas que lutam por vida, por dignidade. É consolar os aflitos. É dar de comer aos famintos. É vestir os nus. É defender o meio ambiente, nossa Casa Comum. É construir pontes, e derrubar muros.

Ser uma pessoa de boa vontade, é se alegrar com todas e todos. É festejar a vida, independentemente da religião que se professa; até dos que se dizem ateus. Ser uma pessoa de boa vontade é compartilhar a vida.

E foi isso que Jesus disse aos seus compatriotas. Deus é "Pai Nosso". E como tal, não faz acepção dos seus filhos e filhas. E isso chocou. Causou estranheza. Ainda nos nossos dias vemos esse tipo de atitude. Pessoas que se fecham em sua certezas falhas. Pessoas que se fecham em suas doutrinas. Que discriminam, excluem. Que valorizam a cor da pele em detrimento do ser humano.

No nosso caminho quaresmal, somos chamados e chamadas a ouvirmos a voz de Deus, e acolhermos a todas e a todos. Jesus é Deus conosco, e não Deus com alguns.

domingo, 7 de março de 2021

Destruí este templo, e em três dias o levantarei!


Iniciamos a 3ª semana da Quaresma. Continuamos nosso caminho rumo à Pascoa.

Estamos diante de três leituras significativas para nós nesse itinerário.

A primeira leitura, tirada do livro do Êxodo, o livro que narra a libertação da escravidão, nos mostra a legislação da nova humanidade.

A segunda leitura, tirada do livro aos Coríntios, narra quem é Jesus. Paulo está diante de uma comunidade onde estão gregos e judeus. Cada um como uma visão distinta da divindade. Paulo precisava unificar essas ideias de Deus para que a comunidade pudesse seguir unida em Jesus.

No evangelho, temos uma cena que a muitos de nós descontrói a figura do Jesus manso e humilde.

Vejamos.

Devemos lembrar que os livros do Pentateuco foram escritos após o exílio da Babilônia. Período duro. O povo teve contato com uma nação politeísta, que cultuava o rei como um deus, tal como no Egito. Era preciso resgatar a fé dos hebreus no Deus único. Se Ele libertou o povo das mãos do faraó, por analogia, ele liberta o povo dos babilônios.

Essa libertação é simbolizada pela nova regra de vida, a chamada Lei de Deus. Assim, a primeira coisa que devem lembrar, ou relembrar, é que não existem "deuses". Só há um. Esse tem a força de libertar da escravidão, seja ela do Egito, seja ela da Babilônia, seja de qualquer outro tipo de escravidão, inclusive a escravidão dos preconceitos, dos racismos, da indiferença, da soberba, da homofobia, da misoginia. Além disso, Deus diz que não se deve prostrar diante de nenhum outro deus, nem mito.

Na nova terra, na nova humanidade, as relações sociais deverão ser de outro tipo.

"Não matarás", nem defenderás nada que possa provocar morte de alguém, ou do meio ambiente.

"Não cometerás adultério". Claro que se fala da relação homem-mulher. Entretanto, existem tantas coisas que são adulteradas em nossos dias. Pesos, medidas, palavras. Negar a vida de um povo, falando contra vacina, é adulterar a verdade. As chamadas "fake news", ou notícias falsas, é adulteração da verdade. Enganar, é adulterar.

"Não furtarás". A cada um de nós nos foi dada a capacidade para viver. Não se precisa suprimir nada de ninguém. Portanto, corrupção, dinheiros roubados em grandes quantidades, supressão de material necessário em hospitais para vida, obras públicas paradas, desvalorização da vida, são uma forma de roubo também. Apoiar pessoas e grupos que vivam assim, é uma forma de roubar também.

"Não levantarás falso testemunho". Xiii. Quantas vezes fizemos isso? Quantas vezes, reproduzimos mentiras de outrem sem saber se aquilo é verdade? Jesus foi caluniado. Ele passou pelo falso testemunho. Os primeiros cristãos eram caluniados. Sofriam com as mentiras que se falavam deles. E nós hoje, como agimos? Como nos relacionamos diante disso?

"Não cobiçarás". E Deus faz uma lista do que vem a ser a cobiça: casa, mulher, escrava, jumento, ou qualquer outra coisa. A cobiça abre as portas para tudo o que veio antes: matar, cometer adultério, furtar, levantar falso testemunho. A cobiça é a porta para nos afastarmos de Deus. Foi pela cobiça de querer ser como Deus, que Adão e Eva cometeram o pecado original. Cuidado com a cobiça.

Na segunda leitura, Paulo destaca a visão que tanto judeus quanto gregos tem da vida. Os judeus querem sinais milagrosos. Estavam acostumados a ver pragas, mar se abrir, curas no deserto. Os gregos, ligados a sua racionalidade. E Paulo apresenta um Jesus crucificado. Um Deus rejeitado. Um Deus que pregado numa cruz morreu; então não era todo poderoso. Para os gregos, alguém que se entrega livremente à morte, não conseguem ver razão nisso, pois o primeiro impulso humano é defender a própria vida.

Paulo, então, destaca que para os "que são chamados", Cristo "é poder e sabedoria de Deus". Em Cristo estão reunidos judeus e gregos. Pois Deus, em Cristo, revela que ao que aos olhos humanos possa parecer insensatez, é "mais sábio do que os homens", e aquilo que possa ser fraqueza de Deus, "é mais forte do que os homens".

Cristo não segue a lógica humana. Deus não se enquadra nos padrões humanos. Por isso ele é poderoso ao vencer a dor da morte com a Ressurreição de Jesus. Ao morremos com Cristo, com ele ressuscitamos e somos mensageiros dessa esperança.

No evangelho, vemos um Jesus revoltado com o que ele encontra no Templo, na casa de oração. Um fato, com certeza, fica em nossa cabeça nesse texto, como poderia Jesus, manso e humilde, agir com tanta violência dentro do Templo?

Primeiro, muitas vezes, fazemos da religião comércio (dízimo é uma coisa, comércio é outra). Não devemos manipular a fé das pessoas para obter alguma vantagem financeira. Fazer uma campanha de arrecadação para uma obra social, um evento religioso de evangelização é uma coisa. Agora, tirar vantagem financeira disso, é outra. Jesus se revoltou e se revolta contra isso. A casa de Deus é casa de oração. A casa de Deus não é um mercado de negócios. Jesus tem zelo pelas coisas do Pai. Por aquilo que representa a presença de Deus no meio de nós. O templo deve ser conservado, mas não com o comércio que explora os mais pobres.

Em segundo lugar, Jesus dá um salto. Aprofunda a relação do templo com Ele. Ele é o templo. A nova Aliança.

E por último, Jesus sabia que as pessoas iam atrás dele não para mudarem de vida, não para criarem uma nova humanidade, mas o seguiam pelos sinais que ele realizava. Pelo pão que comiam, pelos doentes que eram curados.

 E por conhecer o coração humano, sabia que na primeira oportunidade de provação, essas pessoas se afastavam de Deus. E o evangelista diz que "Jesus não lhes dava crédito".

A liturgia pré-pascal de hoje nos convida a olharmos para nós e refletirmos: como estamos vivendo a lei de Deus em nossas vidas? (1ª leitura). Cristo é a fonte de tudo para mim, verdadeiramente? (2ª leitura). Como vivemos a nossa fé em Jesus, de forma comercial, ou com o coração sincero de quem se dispõem a assumir a proposta evangélica de Jesus no mundo de hoje, buscando instaurar o Reino de Deus, que prega a nova humanidade? Um Deus do diálogo que constrói pontes, ao invés de muros.

Aproveitemos esse período da Campanha da Fraternidade que nos convoca a sermos um em Cristo, e rezemos juntos.



sexta-feira, 5 de março de 2021

Este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado.


Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 15,1-3.11-32
 

Hoje temos uma das mais belas passagens do evangelho, o conhecido texto do Pai Misericordioso. Um texto que marcou, e marca muitas pessoas pela atitude de um pai com seus filhos.

Um deles, o mais novo, eufórico com as coisas do mundo, com as coisas da vida, querendo "ganhar o mundo" através das riquezas, decidiu pedir a parte da herança que lhe cabia.

O pai tinha duas possibilidades. A primeira, negar. Dizer que não era ainda a hora da partilha. E a segunda, o que vemos na leitura de hoje. Dividiu os bens, e deu a parte da herança que cabia ao mais novo.

Aos nossos olhos, a história acabaria aí. Pronto. Herança dividida, aquele pai não teria mais compromisso com aquele filho. Com certeza, o irmão deve ter ficado perplexo com essa atitude.

Entretanto, Jesus quer destacar a ação do Pai. Alguns estudiosos dizem que provavelmente aquele pai ia todos os dias para o lugar mais alto da casa, ou até mesmo para estrada ver se aquele filho estava voltando.

Mas, a história nos conta que todo o dinheiro recebido foi gasto numa vida desenfreada. Não enumera o que ele fez. Só diz que caiu em miséria. E que fora cuidar de porcos, e comer a mesma comida que esses bichos. Aqui, acabe uma explicação, os judeus não comem carne de porco.

Aquele filho, então, lembrou-se que na casa do seu pai os empregados eram tratados com dignidade, e pensou em voltar. Mas como seria isso? Ele tinha perdido a herança, o anel de filho, a dignidade de membro daquela família. Como voltaria?

Então, pensou, volto e peço para ser tratado como um dos empregados, assim, terei dignidade na vida. 

Temos, a partir desse momento, o grande pulo do gato. A grande revelação de Jesus. Vendo o filho ainda longe, na estrada, voltando, foi ao seu encontro. É a primeira atitude de Deus Pai em relação a nós, Ele vem ao nosso encontro.

Em seguida, o filho disse, "perdoa-me, pequei contra ti, já não sou digno de ser chamada teu filho. Trata-me com um dos teus empregados".

O pai não lhe diz se o perdoou ou não. Simplesmente, pega o filho pelas mãos, chama os empregados. Manda que a ele seja devolvida a túnica e o anel de filho. Isso já bastava para o perdão paterno. 

Deus é assim. Ele não quer saber o que fizemos. Ele olha para a nossa miséria quando nos reconhecemos pecadores, e nos coloca, novamente, no lugar de filhos. Nos devolve a dignidade de filhos e filhas. E faz festa. Muita festa.

Eu poderia parar aqui. Mas, vamos adiante. Temos ainda a nossa representação nessa história, o filho mais velho.

Nesse momento da história, chega o filho mais velho. Ouve barulho de festa, música. E pergunta a um dos empregados o que estava acontecendo. O empregado narra que o irmão havia voltado, e que o pai havia mandado matar novilho novo, e fazer festas. O filho mais velho se recusa a entrar em casa.

O pai, então, vem ao seu encontro. Observe que a ação de ir ao encontro é sempre do Pai. Ele acolheu o filho perdido, e agora precisava acolher o filho revoltado, triste, chateado com a situação.

O filho diz, "esse teu filho gastou teus bens com prostitutas; e você manda fazer uma festa para ele"? O pai diz, "filho, tu sempre estivestes aqui. Tudo que é meu, é teu. Este teu irmão estava morto e voltou a vida, estava perdido e foi encontrado".

Mais uma vez, o pai recolhe da terra um dos filhos que poderia ficar perdido por causa do ciúme, da inveja, da raiva.

O texto não diz como acaba essa história. Mas fica para nós que nosso Deus, o Deus que Jesus veio revelar e mostrar o rosto, é um Deus que se alegra com a conversão. Um Deus que busca resgatar o que está perdido. Que vem ao nosso encontro. O pai do evangelho resgatou os dois filhos. O pai da parábola se importa com os dois filhos. Assim é Deus. Quer todos e todas juntos de si.

Nossa leitura deve nos levar a atitudes de misericórdia. Independentemente, da religião que as pessoas professam, e mesmo que não professem, elas devem ser respeitas. Jesus chamou ao resgate os que derem de comer aos famintos, de beber aos sedentos; que vestisse os nus; que fosse visitar os doentes, e consolar os encarcerados. Que acolhessem os peregrinos-refugiados-perseguidos. Lembremos, com a mesma medida com a qual medirmos, seremos medidos. Somos nós mesmos que produzimos nosso instrumento de medição.

Amém.

 Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 15,1-3.11-32

Naquele tempo: 1Os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. 2Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus. 'Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles.' 3Então Jesus contou-lhes esta parábola: 11'Um homem tinha dois filhos. 12O filho mais novo disse ao pai: 'Pai, dá-me a parte da herança que me cabe'. E o pai dividiu os bens entre eles. 13Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. 14Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. 15Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. 16O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. 17Então caiu em si e disse: 'Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. 18Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: `Pai, pequei contra Deus e contra ti; 19já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados'. 20Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos. 21O filho, então, lhe disse: 'Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho'. 22Mas o pai disse aos empregados: `Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. 23Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. 24Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado'. E começaram a festa. 25O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. 26Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. 27O criado respondeu: `É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde'. 28Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. 29Ele, porém, respondeu ao pai: `Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. 30Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado'. 31Então o pai lhe disse: `Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. 32Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado'.'

Palavra da Salvação.